segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O VOO DO PARDAL LXII

Virei as costas a este pensamento atroz e fixei a minha atenção na sombra que se movia no chão, aparentemente, sem rumo definido. Assemelhava-se a um feio abutre-preto, esfomeado, em busca de comida, quiçá uma carcaça apodrecida.
Um abutre-preto qualquer até não estaria descontextualizado, pois faz parte do ciclo natural da vida, ocupando o topo da pirâmide alimentar. Este seria até bem-vindo, já que se encontra em vias de extinção na Península Ibérica.

Mas este não era um abutre-preto qualquer.

domingo, 21 de dezembro de 2014

IMAGENS DO MEU NATAL

Estamos a preparar o nosso Natal.
Este ano, a festa será na nossa casa.
A árvore de Natal na sala de tv

O presépio

A sala da lareira

A bota do Zé

A bota da Maria

O prato do Redondo com nova cara

sábado, 29 de novembro de 2014

O VOO DO PARDAL LXI

Os animais, em pânico, corriam de um lado para o outro, em busca de refúgio. Nenhum deles conseguiu manter o sangue frio, para liderar a manada tresmalhada. As ninfas submergiram.
Aquilo passou e eu respirei de alívio. Olhei para o céu e vi uma avioneta, uma avioneta amarela.
Observei com atenção a avioneta. Voava a uma altitude muito baixa, quando sobrevoava a várzea. Excessivamente baixa. E expelia uma nuvem amarelada pela traseira, depois de ultrapassar alguns metros a borda do primeiro canteiro de arroz.

Uma lâmpada acendeu-se por cima do meu crânio e iluminou-me as ideias: arroz, ninfas importadas da China, avioneta amarela, provavelmente enviada pelos chineses, eram coincidências a mais. Estaria o Monte Roseiral em vias de se tornar numa colónia chinesa?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A SÓS COM A MINHA HORTA

Hoje, à tarde, não tive reuniões. Tive uma tarde só para mim e dediquei-a, em exclusivo, à minha horta.
Havia ervas daninhas por todo o lado. Comecei a arrancá-las numa ponta e acabei na outra.
A minha horta começa a parecer-se com a superfície lunar e eu gosto dela assim. Deixei as ervas em montes, que serão recolhidos no sábado pelo Ken para o carrinho de mão.

Li no Borda D´Água que as árvores devem ser estrumadas em novembro. Como não tinha estrume, espalhei adubo nestas videiras raquiticas. Espero que para o próximo ano produzam belas uvas...


Reparei, admirada, neste pessegueiro que em pleno novembro já está em flor. 
Provavelmente, com as geadas, as flores vão morrer.


Esta é a minha estufa. Tantos planos que eu tinha para ela!
Planeei plantar alfaces, tomates, pepinos, feijão verde, etc...


É tão grande a minha estufa! E ocupada apenas por meia dúzia de alfaces, porque não há tempo para mais.


Até os miseráveis dos feijões verdes foram comidos pelos caracóis, só restando os caules.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O VOO DO PARDAL LX

De repente, comecei a ouvir um ronco distante, que se aproximava cada vez mais forte, ferindo os meus ouvidos. Perguntei-me quem teria o desplante de perturbar o equilíbrio daquele cenário assaz idílico.
Uma sombra enorme movia-se no chão e parecia vir na minha direcção. A minha plumagem eriçada e solta, com aspecto desalinhado por natureza, eriçou-se, soltou-se e desalinhou-se mais ainda. Fiquei em pânico, o ronco crescia, a sombra crescia, tudo crescia na minha direcção e eu mirrava de pavor. Encolhi a cabeça sob as asas e fechei os olhos, quando ele passou sobre mim. Um raid aéreo, raciocinei rapidamente.

Impossível. Não estávamos em guerra com ninguém.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

MOMENTOS DE VERÃO

Não consigo adaptar-me ao meu novo estilo de vida.
Vivo angustiada, na ânsia de ver este ano letivo terminado.
Tudo o que me faz recordar o meu antigo estilo de vida enche-me a alma de felicidade. Os milhares de pequenos afazeres que me escravizaram, hoje, sabem-me a pouco.


Esta é a nossa sala de exterior que eu criei no verão.



Esta é a minha coleção de pedras. Costumo recolhê-las nas praias por onde passo.
Comecei há vários anos, sempre com o objetivo de as rotular, para relembrar a sua origem. A tarefa foi sempre adiada. Hoje já não consigo recordar de onde as trouxe... com exceção da 1ª do lado esquerdo, veio da Praia da Foz, no Porto.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O VOO DO PARDAL LIX

As vacas e as ovelhas paravam de mastigar para as escutarem, boquiabertas. Estas paragens constantes na digestão permitiam que a carne ficasse mais tenra e saborosa.
Quem sabe se as ninfas tinham sido, afinal, importadas da China e movidas a pilhas, com o propósito de melhorar a qualidade da carne, como alguém chegou a comentar. Não, eu não acreditava nesta hipótese. O fabrico em série, a baixo custo e importado, a estratégia de marketing, eram trapaças sem lugar cativo num ecossistema tão genuinamente lusitano.

Com excepção do tapete de Arraiolos, que tinha sido uma pechincha irrecusável, numa grande superfície comercial.
Alte

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

UMA VERDADEIRA NOITE DE OUTONO

Lá fora, a chuva cai em bátegas e a ventania rodopia nas árvores, arrancando as primeiras folhas deste outono tardio.
O tempo ideal para acender a lareira.


Em setembro, resolvemos fazer obras e instalar um recuperador de calor. Estávamos cansados de gastar lenha para o calor se perder quase por completo na atmosfera.




Consigo imaginar as aranhas do meu jardim aconchegadas nos seus esconderijos.
Não gosto nada delas. Arrepiam-me.





domingo, 12 de outubro de 2014

O VOO DO PARDAL LVIII

No topo do monte mais alto erguia-se a casa. Pela encosta poente descia um campo de trigo maduro que se dissipava no espaço, que transpunha outeiros e valados, perdendo-se de vista. Tanto oiro derramado por aquelas ladeiras acima e abaixo!
O lado nascente oferecia uma paisagem diferente. Era uma zona plana, subdividida em quadrados geometricamente diferentes, completamente preenchidos de verde, um verde tão intenso que chegava a ferir os sentidos. Era um arrozal.

 A curta distância do arrozal, um açude reflectia o azul luminoso de um Estio que se anunciava tórrido. Na planície, junto ao açude, as ovelhas e as vacas pastavam preguiçosamente nas margens viçosas das águas frescas, longe das ameaças esquecidas da BSE. As ninfas, talvez parentes das Tágides, que se tinham mudado para estas paragens mais recônditas, emergiam das águas em todo o seu esplendor e conversavam com o gado. Contavam-lhes histórias fantásticas de feitos heróicos de gerações passadas e vindouras.

Marina de Portimão

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

AS COISAS BOAS DA VIDA

Estava esquecida das coisas boas da vida. Daquelas coisas que nos dão trabalho, que nos deixam cansados fisicamente mas com aquela sensação de satisfação e de ascensão.

Tão diferente da sensação de um dia de trabalho como empregada.


Quando ainda estávamos de férias, comprámos 10 frangos para engordar.


Ainda quando estávamos de férias e cortámos as sebes, encontrei vários ninhos. Este parece-me ser um ninho de melro

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O VOO DO PARDAL LVII

Juliana tinha a sorte de poder viver isolada do bulício civilizado. Entre o Monte Roseiral e a perfeição do estado social, a chamada civilização, existiam muitos hectares de charnecas belas e inóspitas, pinheiros formosos e sussurrantes, sobreiros nobres e melancólicos, oliveiras férteis e iluminantes, todos com elevado poder de absorção de energias negativas.
A todos, Juliana fornecia nutrientes, posteriormente sintetizados e libertados sob a forma de essências puras, consumidas avidamente pela própria. Juliana renascia quando passava de carro, com os vidros abertos, e atingia a perfeição do estado individual.

Cheguei a assistir ao fenómeno, o que em impressionou.

Eterna saudade das férias - Lagos

terça-feira, 23 de setembro de 2014

DESÂNIMO

No início deste novo ano letivo, a vida pregou-me uma partida... ou será melhor talvez dizer que fui eu que a preguei a mim própria.
Há pessoas que nunca aprendem com os erros. Há pessoas que nunca perdem alguma da sua ingenuidade e que se mantêm estúpidas para o resto das suas vidas.
Eu sou uma dessas pessoas.
Aqui há tempos, eu dizia que nunca iria mudar porque não queria. Apesar dos dissabores que essa forma de estar me trazia, eu achava que o balanço, no final, seria sempre positivo, de uma forma ou de outra.
Mas não, não é sempre positivo, principalmente quando verificamos que os meios, às vezes, são demasiado tortuosos para os fins que se atingem, e que a qualidade da nossa vida não depende só dos objetivos atingidos mas principalmente dos caminhos que percorremos para os atingir.
No início deste ano letivo, dei uma lição a mim própria: que não há limites para a estupidez. principalmente quando a ela estão associadas algumas das nossas melhores caraterísticas, como por exemplo o altruísmo.
Este maldito altruísmo enfiou-me num poço sem fundo. E a prova mais óbvia disso, para os meus visitantes, é a frequência com que venho ao meu blogue.
Parece ridícula, pois parece, esta razão conclusiva. Mas esta tem sido a forma minimalista que eu tenho adotado para sobreviver no meu mundo demasiado complexo... e que me tem impedido de crescer.

Lagos

sábado, 13 de setembro de 2014

O VOO DO PARDAL LVI

O Monte Roseiral era uma propriedade rural, de grande extensão e Juliana era uma latifundiária. Há uns anos a esta parte, com esta conversa, estaria a chamar-lhe fascista, partidária da direita, reaccionária, anti-democrata e outras coisas no género. Actualmente, e perante o impacto social, político, económico e educativo dos media, estaria a chamar-lhe tia. E ela a alcunhar-me de sobrinho.
Confesso que me agradava a potencial intimidade do parentesco, embora ele não passasse dum duvidoso devaneio momentâneo.

Na realidade, Juliana não era uma coisa nem outra. Assim como eu não passava dum pardal-dos-telhados, ela era uma rapariga simples que gostava de coisas triviais.

Arrifana

domingo, 7 de setembro de 2014

MILHO DE PIPOCAS - PARA QUE TE QUERO?


Eu tinha um sonho desde criança: fazer pipocas!
Estraguei algumas panelas e fiz muitas mixórdias, usando milho impróprio.
O sonho continuou a perseguir-me já na vida adulta. Só quando ia ao cinema acalmava um pouco a obsessão...
Há anos, no jardim de infância, tentei fazer uma sementeira, usando milho de compra. Não germinou.


Este ano consegui, junto de uma mãe de uma das minhas crianças, milho caseiro, com o qual fiz uma sementeira na minha horta. Germinou maravilhosamente e produziu admiravelmente.

Preparei-me para concretizar aquele sonho adiado.
Preparei um recipiente de plástico, daqueles que libertam dioxinas no microondas, com um pouco de óleo, açúcar e o milho. Ouvi o caraterístico rebentar cheia de expetativa. Fui espreitar e vi que o fundo do forno estava coberto de pipocas. Não quis interromper o processo porque o recipiente ainda tinha milho por rebentar. Pouco depois, verifiquei que o milho que estava inteiro estava a ficar queimado e resolvi intervir. O fundo do recipiente estava derretido...

Não desisti e fui buscar um pirex. Coloquei o óleo, caramelo líquido e o milho.
Qual não foi o meu espanto quando ouvi um enorme estrondo: o pirex tinha acabado de explodir.




As poucas pipocas que consegui aproveitar estavam emborrachadas.
E foi assim que terminou um sonho de uma vida inteira...

sábado, 6 de setembro de 2014

O VOO DO PARDAL LV

Habitualmente, os passer domesticus são caracterizados pelo voo directo e perfurador, complexo e desajeitado, com batimentos de asas muito rápidos e contínuos. Eu constituía a excepção à regra, razão pela qual desisti do gregarismo.
As minhas omnixperiências permitiam-me, agora, matizes invulgares e divinas, à imagem e semelhança de Capelo Gaivota. Eu tratava por tu todo um manancial de acrobacias aéreas, voos planados, piruetas completas, parafusos invertidos, curvas perfeitas, alta e baixa velocidade, baixa e alta altitude, etc., etc., etc. Todo o meu corpo, desde a ponta de uma asa até à ponta de outra asa não é mais do que o meu próprio pensamento, numa forma que eu posso ver. Se eu quebrar as correntes do pensamento conseguirei quebrar as correntes do meu corpo.
Grande lição Bach me ensinou, por ocasião de ter ficado fechado, durante uma noite, numa biblioteca. Grande lição. Da qual me haveria de esquecer, sem disso dar conta.

Naquele dia, pleno de liberdade e despojado de todas as correntes, avancei na minha descoberta do Monte Roseiral e zonas limítrofes.
Arrifana

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

SALDOS EM FIM DE ÉPOCA

O saco das compras, iniciado no inverno, está pronto e está à venda e disposição dos meus fiéis visitantes!
Vendo para qualquer parte do globo: Portugal, Estados Unidos, Alemanha, China e Polónia.

Garanto que nunca foi utilizado.
A foto abaixo apresentada é uma simulação que visa revelar ao potencial cliente a real capacidade do saco.

É uma peça única e original que dispensa mais apresentações... e só custa 25€ mais portes.
Aproveite, que amanhã já é tarde!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL LIV

 Parti em voo de reconhecimento sozinho.
Mais vale só do que mal acompanhado, reflecti, embora haja quem prefira mal acompanhado do que só. Tu e eu não somos desses, por isso te escolhi como confidente.
Voei ao sabor do vento que não soprava, refresquei as minhas penas ao sol que queimava. O calor fazia-me transpirar, ensopando-me os órgãos cutâneos até ao tutano. Toda a minha superfície estava fresca. Tão fresca que não quis estar noutro sítio senão naquele.
Eu cortava, sem dó, o ar a fio de navalha. Se tivesse tomado um pouco mais de atenção, teria reparado no fiozinho de sangue a escorrer do ar que rasgava, como o galo, num momento de posterior intimidade, me confidenciou.

Voei de todas as formas que me apeteceu e desafiei todas as leis da aerodinâmica. Não havia ninguém nas redondezas que me controlasse, proibisse ou que escarnecesse do meu voo. Era de novo livre para obedecer aos meus princípios ímpios.

Odeceixe


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

MOMENTOS


Esta é a imagem que eu quero que me acompanhe durante todo o ano. Ela reúne o que mais aprecio...

 ...ao pôr do sol na Praia da Rocha.

Assim como os pés embrulhados em areia, à hora de ir embora, em Lagos. 

Perco-me em divagações ao imaginar a rotina que aconteceu em volta deste poço no Forte da Praia da Rocha.

 Impressionou-me este pássaro que não consegui identificar, junto de tantas gaivotas.
Tinha um aspeto doente e piava de forma angustiada.

 Gostei do aspeto árabe desta paisagem. Pertence a um hotel na Praia da Rocha.

Este canhão no Forte da Praia da Rocha matou-me de riso...

... porque o monograma tem as minhas iniciais!
Este canhão é meu!!!
Cedi-o temporariarmente à Câmara Municipal de Portimão...