sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A HORTA DA BARBIE E DO KEN

As férias do Carnaval chegaram.
É tempo de trabalhar na horta, a tempo inteiro: arrancar ervas, sachar os canteiros, semear e plantar mais legumes.
Espinafres, cenouras, coentros e rabanetes

Couve-flor, repolhos e alfaces

Couve roxa

Couves

Uma colónia de formigas instalada
:
Porque o prazer de colher é imenso...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL XI

Por norma, expunha as minhas frágeis células nervosas a todo o tipo de taras e manias. Naquele dia não foi excepção e cismei com o inevitável: a resignação permitia-me abdicar de livre vontade de algo que queria muito, através da aceitação do limite; no entanto, a dualidade que me era inerente impedia-me de deixar de sonhar com o bem que desejava.
Naquele preciso momento, eu não conseguia fazer marcha atrás. Existia uma limitação real e física que não me permitia fazê-lo. Mas o que é que me impedia de sonhar e de o desejar? Nada, absolutamente nada.
Inevitavelmente, o diferencial de 30 mA esturricou. Como acontecia com frequência.

Teria que apontar na agenda – comprar um interruptor omnipolar. Aliás, com o ritmo alucinante que a minha vida parecia estar a tomar, teria que comprar uma caixa deles.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL X

Não tinha tempo a perder, porque estava na altura de me dirigir ao astro rei e receber a sua bênção.
Voei o mais alto que consegui e semicerrei os olhos, para coar o brilho. O rei estendeu os seus raios sobre o meu corpo, em sinal de assentimento. Sabia que estava a abençoar a minha plenitude e eu senti-me envolvido pela paz celestial e tranquilidade universal.
Curvei a cabeça, em sinal de reverência e tentei voar de marcha atrás, o que me foi impossível. Uma ave não voa de marcha atrás, tal como o avião, que também não o faz. Pelos menos os antigos, aqueles que conheço.
 Às vezes, existem limitações que nos são alheias. Devemos aceitá-las com um misto de resignação e de esperança, não concordas?

À cautela, a brisa do entardecer accionou o meu interruptor diferencial de 30 mA, a fim de proteger os meus neurónios sensíveis das descargas de corrente intensas, em vias de ocorrência.
 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL IX

Saí do meu leito quente e macio. Ensaiei uns saltitos vivos e rápidos, sob o seu olhar atento. Ensaiei alguns esboços de me suster e de me deslocar no ar, com o auxílio dos meus membros aliformes.
Consegui. Soltei um estrondoso tchhirrap e percorri a sala de lés a lés, vezes infinitas. Ela saltitava e rodopiava ao meu ritmo, rindo alegremente e batendo as palmas.
No exacto momento em que uma nesga de sol se esgueirou pela janela entreaberta, vi-me impelido a ir ao seu encontro. Errei o alvo e caí de novo ao chão, desta vez sobre um tapete fofo. Dei uma cambalhota sobre mim próprio, recuperei o equilíbrio e saí airosamente.
Voei aleatoriamente sobre o meu reino, de peito inchado. Não pude deixar de lançar um olhar esguelhado para o cata-vento. O guardião continuava em sentido, orgulhosamente cumpridor da sua missão, agora despojado do catarral e livre da fonte de combustão, já extinta.

Ele era uma grande sentinela. Um dia teria de o condecorar, pelos seus árduos serviços. Teria que apontar na agenda, mais tarde.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EXPERIÊNCIA


Hoje, ao pôr do sol, iniciámos o cultivo de cogumelos em casa.

O composto foi adquirido já com o micélio à superfície

O composto com o micélio foi coberto com substrato

A pequena estufa ficará junto da janela, protegida da luz solar direta

Do outro lado da rua, o sol já parte


domingo, 16 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL VIII




Acordei aninhado numa manta de lã escocesa de vermelho axadrezado.
Soava no ar uma música suave, embalando a minha convalescença e o ritmo da mão da minha benfeitora no meu crânio, quase oco.
Quis ficar enfermo para sempre, mas ela não deixou. Assim que abri os olhos, ela retirou a mão escaldante das minhas penas eriçadas e ofereceu-me uma taça cheia de estranhas sementes.
Fiz-me rogado e amuado. Ela segurou-me, simultaneamente, com firmeza e com doçura, enterrando-me parcialmente a cabeça e o bico naquele manjar dos deuses, a que não pude resistir. Empanturrei-me até não poder mais. Beberiquei umas gotas de um precioso e estranho néctar. Seria água açucarada? Não interessava, senti-me de novo vivo, forte, musculoso, viril e feliz. Tinha o mundo a meus pés.
Sobre mim só reinava ela, Juliana.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL VII

Com o ruído que provoquei, durante e após o embate, despertei a minha bela do sonho em que estava imersa. Virou o colo de bronze na direcção da janela e franziu, com leveza, o sobrolho. Porque estaria a franzir o sobrolho? Seria eu um monstro? Sim, a história de encantar ideal: a bela apaixonar-se-ia pelo monstro, o monstro transformar-se-ia num belo e seriam felizes para sempre. Que mais poderia eu querer da vida? O final já estava escrito. Ela levantou-se e caminhou para a janela, na minha direcção. Eu estava hipnotizado, esbugalhado e paralisado, debilmente preso às lascas de madeira que se iam desprendendo. Ela abriu a janela e eu fui bafejado por inúmeras partículas flamejantes, talvez incandescentes, que me fizeram cair redondo no chão. Ela galgou ansiosamente o peitoril da janela e… Meu Deus... nunca tinha visto nada semelhante. A saia subiu-lhe até ao cimo das coxas, descobrindo os membros mais magníficos, mais dourados, mais torneados do mundo animal, encimados por... mais não posso acrescentar. Ela não me perdoaria. Perdoa-me tu. Sabes que há assuntos que não se partilham. Juliana avançou para mim e eu deixei de ver e sentir. Julguei-me morto.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL VI



Foi então que a vi! Esgatanhei a trave de madeira para não cair, para não perder o equilíbrio, para não perder aquela visão. Não era possível. Nunca tinha visto pardeja, pardoca ou pardaloca que se lhe igualasse.
Ela era uma dádiva enviada pelos Céus. Como é que nunca me tinha cruzado com ela, nas minhas deambulações pelo espaço aéreo?
Só podia ser um sonho.
A partir daquele momento, tomei a decisão de que iria transformar a minha vida num sonho perpétuo.

De repente, lembrei-me do chamuscado que se consumia no alto da chaminé, para rapidamente o voltar a esquecer. Provavelmente seria um masoquista. Não haveria nada a fazer.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

OS MEUS TRABALHOS MANUAIS

A trilogia das maças na minha cozinha

A minha janela no Natal 2013


Aplicação em ponto cruz para saco de compras - para venda

Individuais de cerejas por estrear

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL V

A minha Juliana morava numa casa do Monte Roseiral, situado algures por aí. Era a única casa viva, num raio de algumas milhas aéreas.
Descobri-a por acaso, após algumas deambulações em busca de um lar. Chamou-me a atenção a coluna de fumo que se libertava apressadamente da chaminé, para sufocar com avidez o guardião do cata-vento.
Tive pena dele e voei rapidamente em seu socorro. Ao chegar ao local do incidente, deparei com algo que se parecia com um galo preto, diabolicamente mascarrado, enfarruscado, arfante e atacado por uma tossegueira imperial.
Peguei-lhe numa asa. Curiosamente, reparei que só tinha uma. Mas não parei para pensar no assunto, na eminência de o salvar. Puxei com quanta força tinha. Nada. Ele parecia plantado em argamassa.
Resolvi mudar de táctica e eliminar a fonte de combustão que produzia a mistura complexa de gases e vapores, com inúmeras partículas em suspensão que entupiam as vias respiratórias do galo. Circundei a casa, em busca duma fenda por onde pudesse penetrar e acabei por chocar com uma vidraça.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL IV



Tenho a certeza de que já conheceste uma Juliana, não a minha mas outra muito parecida com ela. Quem diz uma Juliana, diz um Juliano. Não quero ter a pretensão de ser o único a amar perdidamente, divido irmãmente contigo este malfadado privilégio.
Amor é uma palavra do género masculino. Terão, apenas, os machos imunidade para amar?!... Só assim poderei explicar o facto de Juliana nunca me ter amado.
Todavia há males que vêm por bem. A recusa de Juliana ajudou-me a perder a inocência e a deixar de sonhar acordado. Amadureci, para poder sobreviver no equilíbrio precário entre o desejo e a inteligência. Cresci para rasgar o invólucro da sensatez, novinha em folha para mim. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL III

 Fosse inverno ou verão, exibia sempre uma pele trigueira e cabelos castanhos, estranhamente cor de palha nas pontas. Seria o mel dos seus olhos que derramava todo aquele ouro na sua aura? Não tenho dúvida alguma.
Eu ansiava perder-me naquela profusão dourada. Deixar-me prender nos fios dos seus cabelos, como se fossem grades duma cela, da qual nunca fugiria, inebriado pelo perfume que se desprendia deles. Desejava deixar-me ficar grudado, para sempre, nas suas impressões digitais feitas de resíduos de açúcar cristalizado, no parapeito da janela, no rendilhado do varandim, no meu comedouro ou na roseira escarlate, que trepava pela coluna do telheiro.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL II



Estou em plena primavera, o que em deixa sempre tristonho e virado do avesso. A explosão cíclica de vida e alegria, que lhe está associada, continua a despertar-me emoções, apesar de terem sido enterradas definitivamente há muito tempo. 
A primavera, por oposição, recorda-me um outono distante, quando tudo acabou. Quando a minha história acabou.
Reza assim essa história de um grande amor. 
Há muito, muito tempo, um tempo de que ninguém tem conhecimento ou memória, talvez nem eu próprio, morei num telheiro duma casa onde morava Juliana. 
Ela não se parecia, em nada, com as fêmeas que conheci. Era tão meiga, doce e linda. O seu rosto era adoçado pelos olhos cor de mel, sombreados por pestanas generosas e aveludadas, e pelos lábios cor de cereja madura. Juliana era uma explosão de sedução irresistível.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O VOO DO PARDAL I



Voltei, num breve retorno. Tão curto que vai durar apenas o tempo de te contar um segredo.
Não posso demorar, Pardaloca está convalescente e espera por mim no ninho. Ela acabou de ser mãe e os nossos filhotes têm fome.