segunda-feira, 31 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XXII

Maldito código negro. Só uma mente muito perversa se poderia lembrar dele. Essa mente não podia pertencer a Juliana, pareceu-me.
Haveria aqui a interferência da mente inconformada do guardião do cata-vento? Ou seria a minha?

De repente, não pensei mais. Senti algo palpitante, arrítmico e quente. Era ele.

Ilha do Pessegueiro

domingo, 30 de março de 2014

REGRESSO AO PASSADO I

Um dia destes, retirei do armário, com o cheiro a naftalina, uma toalha que fiz há 500 mil anos.





quarta-feira, 26 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XXI

O meu cérebro estava de novo em curto-circuito, impotente e às aranhas, tal como eu. Os meus nervos coronários estavam mudos, não me transmitiam qualquer tipo de sinal. Pela primeira vez, o meu cerebróide viu-se incapacitado de verificar continuamente as necessidades sanguíneas do meu organismo. Já me estava a ver a desfalecer.
Os meus nervos coronários já não me pertenciam, estavam perdidos no meio das ervas daninhas, ou das flores, abraçando fiel e tremulamente o seu coração – que também já não me pertencia – o seu companheiro de duras batalhas, unidos mais do que nunca pelo desespero da orfandade.
Conseguia imaginá-los aos solavancos pelo chão, como os rabos das lagartixas amputados. Conseguia mesmo ver o meu coração chocando contra todos os obstáculos, rebolando ora para a direita, ora para a esquerda, mutilado, assustado, indefeso e cego. E eu sem poder fazer nada.

Teria que o recuperar a todo o custo, desse por onde desse, voltar a ser o seu hospedeiro, fazer-lhe sentir de novo que era desejado lá, onde o bárbaro vazio se tinha instalado.

terça-feira, 25 de março de 2014

LISTA DE ESPERA

Esta cortina encontra-se num cesto ao lado da lareira, há anos. Não consigo pegar-lhe.
Está bonita... mas esta não é razão suficiente...


segunda-feira, 24 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XX

O que é que eu iria fazer? Sem cama nem mesa e com o coração perdido no chão, algures no meio das ervas daninhas. Ou será que eram flores?
Comecei a vasculhar desalmadamente, por aquilo que verdadeiramente era meu. Estava escuro como breu e eu não conseguia ver um palmo à frente do nariz, que é como quem diz à frente do bico. Senti-me perdido.

Como iria sobreviver sem o meu coração? Entre a região inferior dos meus dois pulmões, senti a sua falta. Em circunstâncias normais, ele deveria aí estar anichado. Mas o vazio introduziu-se barbaramente sem pedir licença, deixando-me esvaziado. Como é que a minha bomba do lado esquerdo iria injectar o sangue vermelho-vivo, rico em oxigénio, na aorta, e daí para os vasos sanguíneos? Como é que ele iria chegar a todas as partes do meu corpo? Como é que o meu sangue iria deixar o oxigénio nos tecidos do meu organismo e regressar venoso vermelho-escuro, através das veias, até ao lado direito do meu coração, para ser bombeado para os pulmões e receber o oxigénio inspirado pelas fossas nasais ou pelo bico?! Sem resposta a tantas interrogações, senti um aperto no vazio, que me subiu à garganta e quase sufocou. Um abrupto soluço suavizou o meu pranto.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XIX


O castigo seria merecido. Tinha violado as leis universais do dever. Aliás, foi por esse motivo que ele, o código, foi criado, para punir os violadores. Eu não podia fugir ao que não estava escrito, mas estava instituído nos parâmetros morais de todos os seres racionais e irracionais.

Vai daí que voei tresloucadamente para o meu purgatório, desejoso de purificar a minha alma. Iria chegar a tempo de me redimir?
 Não! A vidraça estava lá, impenetrável, tal como nessa manhã. Uma barreira. Desta vez consegui travar a tempo e impedir o embate. Desta vez, não fui eu que caí redondo no chão, mas o meu coração.
O meu pobre coração rolou pelo chão, sem gota de sangue.
Mas a minha prioridade, naquele momento, era outra. Ela tinha-me vedado a entrada no seu lar e no seu seio. Juliana negou-me o aconchego da manta de vermelho axadrezado e a ceia.
Afinal, tinha-me sido aplicado o código negro.
Nunca tinha ouvido falar dele. Foi inventado por ela.

quarta-feira, 19 de março de 2014

terça-feira, 18 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XVIII

Alerta vermelho! O lusco-fusco acentuou a ocorrência duma luzinha vermelha, no cimo dum monte distante, denunciando a presença duma antena emissora de ondas hertzianas. A sua emergência arrancou-me à teia de divagações a que estava preso.
Era tardíssimo, ir-me-ia ser aplicado o código vermelho, de certeza, à boa maneira dos western de 5ª geração. Juliana iria estar dissimulada atrás da janela, de rolo da massa em punho, pronta a desferir em mim os mais rudes golpes, aos quais eu tentaria esquivar-me em vão.
Sempre soube que o código vermelho era aplicado em última instância.

O intenso amor que Juliana nutria por mim impedia-a de me percepcionar como um ser autónomo e livre. Ela tinha razão, eu e ela éramos um só. Eu era a sua sombra, um pouco enfezada, é verdade, mas mesmo assim uma sombra. E uma sombra não pode abandonar, em caso algum, o seu objecto. Onde já se viu tamanha desfaçatez?

segunda-feira, 17 de março de 2014

BOLO DE IOGURTE

No jardim de infância, fizemos um bolo. Para festejar a vida e o que ela tem de bom para nos dar.




Divertimo-nos, deliciámo-nos e desenvolvemos algumas aprendizagens.
Tal como a vida deve ser: uma aprendizagem agradável!

domingo, 16 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XVII

As flores das magnólias eram o éden das abelhas. O meu era um casarão de açúcar cristalizado, salpicado de estranhas sementes, perdido no meio dos montes e dos chaparrais, com um menu completamente renovável e requintado, capaz de satisfazer o maior esganado de todos os tipos de fome.

Eu era o Hansel. Na casa de açúcar habitava, não uma bruxa encarquilhada, de olhos raiados de sangue e verruga no nariz adunco, sedenta da carne tenra de criancinhas, mas uma fada boa. Uma fada muito boa.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XVI

Na minha embevecida contemplação vespertina, ainda vi os caramanchões de glicínias e buganvílias a espreguiçarem sombras escuras sobre bucólicos bancos de pedra, protagonistas de inefáveis momentos de ripanço, num passado longínquo e futuro próximo. 

As majestosas magnólias, sem dúvida, contemporâneas das plantadas por Robillon nos jardins do Palácio de Queluz, ofereciam prodigiosas corolas aveludadas, cor de pérola, dignas de um ramo de noiva, da minha noiva Juliana. Que pena que só durassem um dia e uma noite. De tão inebriantes no seu doce perfume e efémeras na breve essência, as abelhas, sabedoras deste segredo, acotovelavam-se desalmada e metodicamente para recolherem doses industriais do melado suco dos estames, antes do seu precoce perecimento.

quinta-feira, 13 de março de 2014

PALMEIRAS EM VIAS DE EXTINÇÃO

Um dos últimos resquícios da herança árabe - a palmeira - está a ser destruída por uma praga terrível de escaravelhos amarelos.
A minha palmeira não foi exceção a esta razia.

O casulo do escaravelho

O escaravelho com a broca responsável pela destruição
Os casulos e os escaravelhos existem aos milhares dentro da palmeira. O interior da palmeira transforma-se literalmente em substrato.

quinta-feira, 6 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XV

E perdi-me. Onde íamos? Sim, no beirado tradicional português. Era uma casa ancestral, de paredes caiadas com barras de azul aguado, aqui e ali, já a descascar. Já há muito tempo ninguém se dava ao trabalho de derreter uma pedra de cal, para fazer jus à sua magnificência. Quem sabe se este aspecto seria mantido para acentuar o sopro nostálgico e saudosista dos tempos de outrora? Ou seria por falta de dinheiro ou de tempo? Ou simplesmente um pormenor irrelevante para a residente. 

Fosse como fosse, eu gostava dela assim, velha e embrenhada entre maciços selvagens e verdejantes, salpicados aqui e ali por reminiscências coloridas, materializadas em rosas, muitas rosas, em buganvílias, brincos-de-princesa, sardinheiras, goivos, margaridas, hortênsias, malmequeres e outras, das quais não me lembro o nome. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

SISTEMA DE CONDUÇÃO DE FRUTEIRAS EM PALMETA - Sim ou não?

O dia não foi fácil e deixou-me exausta pelo esforço desenvolvido. 
Comecei a conduzir as fruteiras do pomar em palmeta, o que é uma tarefa de extrema complexidade, já que todos os procedimentos desenvolvidos são determinantes para o nível de produção.
Com a agravante de que sou uma amadora na arte. Fi-lo com a certeza de que não sei o que fiz.


Macieira com corte acima da gema para estimular o aparecimento de um ramo guia

Ramos guia em ângulo de 90º como convém

Na macieira do lado direito começou o descalabro. Os 2 ramos guia, na parte inferior, estão muito longe do arame que os deve conduzir, o que os irá obrigar a descrever um ângulo de quase 180º, o que é impensável.
Esta pereira está caótica, nem sei o que dizer sobre ela...
A Ice observa a dona desorientada







Mais valia ter aproveitado o último dia de férias a ver um belo filme!

terça-feira, 4 de março de 2014

NA FORJA

Um dos sacos de compras está quase pronto!
Bolso extra largo

Pormenor em ponto cruz

 O outro é ainda um esboço.
Com bolso e folhinho

Pormenor das bainhas abertas


 Lamentavelmente, não consigo arrumar as fotos...



Será caso para dizer "E quase tudo o vento levou"
Vai ficar lindo

segunda-feira, 3 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XIV

No momento que precedeu a aterragem, apreciei pela primeira vez a beleza intemporal daquela casa, já parcialmente envolvida pela penumbra. O telhado era composto por várias águas, à semelhança dos telhados de Tavira. Cada uma das águas estava ligeiramente côncava, pelo peso do tempo e das intempéries. Contudo, corajosamente suportadas pelo beirado tradicional português, idêntico em tudo às ondinhas habilmente traçadas pelos meninos, nos seus cadernos de escola.
Que recordação daquelas crianças, que pedreiros, arquitectos, engenheiros civis, que artistas em emergência, no esforço de atingirem a perfeição, através das suas mãozitas, ainda hesitantes mas perseverantes! Eu ficava embevecido a observá-los, pela janela, no telheiro das escolas onde morei. Que lhes terá acontecido? Pergunto-me, às vezes. Talvez alguns tenham mergulhado nas ondas do oceano profundo, enquanto outros se mantiveram na crista da onda, a toda a velocidade.

É com estes últimos que eu gostava de me parecer, sempre a abrir.
Porto Covo

domingo, 2 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XIII

Serra da Estrela

O som ecoou-me aos ouvidos estranhamente esganiçado. Talvez ponderasse a possibilidade de fazer terapia da fala, para elevar o tom… Encolhi os ombros, com um esgar de desprezo, perante o absurdo da minha fraqueza, e não pensei mais no assunto. Estava exausto e precisava do meu ninho, feito de vermelho axadrezado. Estava esfomeado e sedento.
 Iniciei o caminho de regresso a casa. Juliana esperava-me para jantar. Que manjar teria ela preparado desta vez? No meu cérebro, atrofiado pelas potentes descargas eléctricas a que estive exposto, foram desfilando os pratos mais suculentos e apetitosos de que tinha memória ou, simplesmente, a refeição da manhã.
 Salivava com intensidade, como o cão do Pavlov, ao retinir da campainha. A maior diferença entre nós, entre mim e o cão, residia no facto de o meu estímulo ser visual e o dele ser auditivo.

sábado, 1 de março de 2014

O VOO DO PARDAL XII

A noite aproximava-se da vigília, quando retornei ao monte, já com o curto-circuito reparado.
Uma réstia de sol fez questão de me acompanhar no regresso, ricocheteando nas vidraças, para as incendiar de paixão alaranjada. 
Visto de cima, o meu novo lar exultava profusamente. 
O campo de gravitação entre o Sol e a Terra provocava uma intumescência no interior desta última. Era a reacção típica ao facto de eu ter ultrapassado os limites do terreno e de ter ascendido ao supremo. 
O meu monte era o local eleito para drenar essa energia incandescente, numa jubilosa manifestação. Era a esse fenómeno que eu assistia lá do alto, onde me encontrava, bem perto das nuvens e a salvo de qualquer erupção vulcânica.
Esta coisa rara era decerto uma imitação da paixão ou, quem sabe, uma homenagem ao amor que fervilhava em mim e me unia inevitavelmente a Juliana. Ela era o Sol e eu a Terra, dois corpos que se atraem, com uma força proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da sua distância. Era atracção e emoção a mais para um incomum mortal, a braços com a relatividade dos fenómenos físicos. Desisti de tais enredos científicos e elevei-me nos ares, voei contra a brisa forte, chilreando a plenos pulmões: Juliaaanaaaaaa!