quarta-feira, 28 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XLI

Verifiquei que o tapete era dos modernos, made in China, e tinha rodinhas. 
Levantou-se tão depressa assim como caiu e praguejou contra os chineses, a sua tecnologia de ponta e respectivos preços cómodos. No roupeiro, vasculhou atabalhoadamente os cabides. Deduzi que não conseguia encontrar o que queria. 
Dirigiu-se então ao cesto da roupa suja e encontrou o seu objecto de pesquisa: umas calças de ganga amarrotadas, com as bainhas, à boca-de-sino, empoeiradas. Pô-las à sua frente e, verificando que o seu estado era razoável, enfiou-as rapidamente. Voltou ao roupeiro escancarado e retirou uma camisola azul-turquesa, com uns dizeres em inglês. Dizeres estes que, em situação normal, deveriam estar na dianteira mas que, por mero acaso, ficaram na traseira. Pormenor sem importância, pensou ela. E eu concordei.


terça-feira, 27 de maio de 2014

PÃO DE ATUM COM QUEIJO

Partilho uma receita que já experimentei fazer 2 vezes. De ambas as vezes, fiz de forma diferente: substitui ingredientes, alterei quantidades e saiu sempre delicioso.
Aliás o que mais aprecio nesta receita, para além do seu sabor, é a sua capacidade de auto regulação, independentemente do que temos na despensa ou do que nos apetece usar.





- 3 latas de atum
- salsa picada
- 100 g de queijo ralado
- 1 dl de leite
- 3 ovos
- 100 g de farinha
- 1 colher (sopa) de fermento
- margarina para untar
- farinha para polvilhar

Escorrer o atum e esmagá-lo com um garfo. Juntar a salsa picada e o queijo e envolver.
Bater os ovos, o leite e a farinha com o fermento até ficar uma massa lisa.
Juntar este preparado à mistura do atum.
Envolver bem e deitar na forma untada.
Cozer a 180º durante +- 40m.
Servir frio ou morno.
BOM APETITE!


segunda-feira, 26 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XL

O sol já ia alto na abóbada celeste, quando Juliana acordou e começou a espreguiçar-se. Consegui ver-lhe a doçura melosa dos olhos, por entre o emaranhado da palha doirada.
Ela ficou imóvel quando me viu. O rosto iluminou-se-lhe com um sorriso rasgado e sussurrou: fofinho, tás aí! 
Virou languidamente o rosto para o despertador, em cima da mesa-de-cabeceira, e paralisou. Arregalando os olhos e impulsionada por uma estranha força, deu um salto da cama. Aquela estranha força, saída do nada, aniquilou a magia que circulava no quarto, contra a minha vontade. Todavia o meu desejo era pouco relevante naquele contexto. 
Juliana atirou as pernas para fora com desenvoltura, mas, ao pisar o tapete de Arraiolos, caiu de rabo no chão. 

domingo, 25 de maio de 2014

RESCALDO

Caros leitores

Deveria estar contente por o meu partido ter vencido estas eleições com 66,2 %. Não estou. Fiquei até arrependida de não ter votado.
Depois de ter ouvido o grande discurso de vitória de Passos Coelho e de Paulo Portas, discurso arrogante que despreza a pequena vitória do PS, não perderei a próxima oportunidade de contribuir para a sua derrota.

As emoções negativas não devem ser uma prioridade nas nossas vidas, por isso partilho uma piada que acabei de ouvir a um jornalista da RTP: "Por que não sortear um carro entre os eleitores nas próximas eleições?"
Largo do Carmo, Lisboa

sábado, 24 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXIX

Juliana voltou a adormecer. Iria arrefecer destapada e talvez constipar-se. Levantei voo sem ruído, peguei no lençol com o bico e cobri-a suavemente, para não a despertar.
Perdi a noção do tempo, enquanto velava o seu sono. Eu próprio acabei por passar pelas brasas e sonhei.
Sonhei que ela era um anjo, que tinha asas e voava comigo, para além dos limites terrenos. A única fronteira que se nos afigurava era a linha do horizonte, que recuava cada vez mais, à medida que dele nos aproximávamos.
Repentinamente, o céu azul cobriu-se de nuvens negras, fustigadas pelo vento norte. Começou a relampejar e eu acordei sobressaltado.
Olhei-a e ela dormia profundamente.
O CD tinha chegado ao fim e o sol continuava a brilhar.



sexta-feira, 23 de maio de 2014

A ABSTENÇÃO - GRITO SURDO



No domingo, não irei votar. Usarei a abstenção como voto de desconfiança em toda a classe política.
Recuso pactuar com a estratégia política dominada pela instrumentalização das pessoas.
Recuso o código de valores que o Capital pretende impor.
Recuso a ausência de caráter dos decisores políticos.
Recuso o Triunfo dos Porcos.






quinta-feira, 22 de maio de 2014

UM ACHADO

Há dias, encontrei à venda este recipiente (não sei que nome lhe dar) que me permite transportar tudo aquilo de que preciso para trabalhar na horta e no pomar.
É vê-la de maleta na mão, a circular de um lado para o outro, como se de um médico se tratasse ;)))







quarta-feira, 21 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXVIII

Os olhos dela observavam-me, com um sorriso imenso, silencioso e malandro.
Como é que o meu coração se encheu de ódio por uma criatura tão doce e bela? Como ousei deliberadamente chamar-lhe nomes feios?!
Reconheço e admito que foi uma coisa passageira, que não durou mais do que o tempo necessário. Para além do mais, a paixão é um sentimento intenso e violento que dificulta o exercício duma lógica imparcial. É o dicionário que o diz.

Portanto, ilibado.

D. João IV, Praça do Rossio

terça-feira, 20 de maio de 2014

ACIDENTE NO POMAR DA BARBIE E DO KEN

Este ano o nosso damasqueiro ficou carregado de fruta. Tão carregado que os troncos não aguentam tanto peso.
O Ken foi à vila, com urgência, comprar paus de madeira tratada para ajudar a suportar a carga.


Num dos troncos que estava a abrir, fizemos um curativo. Fizemos uma papa de terra com aparas de madeira e introduzimos este preparado na ferida. Depois envolvemos com um pano que atámos e regámos abundantemente. Em seguida, escorámos o tronco com 2 paus. 


Demos início a uma verdadeira operação de salvamento... que parece não estar a resultar.
O desperdício é enorme e até dói.



A minha coluna jónica preferida

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXVII

Todo o aposento ficou resplandecente de poalha doirada. Senti-me bem e descontraí os maxilares. Continuei com os olhos semicerrados, desta vez de prazer. Relaxei cada músculo, cada articulação do meu corpo e entreguei-me ao momento.
Juliana colocou um CD no leitor. Deixou o volume bem baixo e voltou para a cama. Deitou-se ao meu lado, de barriga para baixo. Escondeu os braços sob a almofada, esticou uma perna, dobrando a outra, em quatro. Deixou-se ficar toda a descoberto.

A camisa de dormir ficou subida até à cintura, descobrindo umas cuecas brancas, com pequenos morangos silvestres, a contrastar com a pele cor de bronze, lisa e brilhante.

Praça do Rossio

domingo, 18 de maio de 2014

COMPOTA DE CENOURA E SUMO DE LARANJA

Esta semana, fiz doce de cenoura para escoar o excedente da produção.
Foi tarefa difícil porque o sabor da cenoura é desagradável; tive que juntar o sumo de 6 laranjas e uma boa quantidade de licor de poejo.
O resultado foi positivo mas difícil de repetir.






O VOO DO PARDAL XXXVI

Ela abandonou o átrio e levou-me para o interior, para o seu quarto. Colocou-me, com delicadeza, sobre a almofada anti-ácaros, de penas verdadeiras de ganso prateado, protegida por uma fronha Agatha Ruiz de la Prada.
Toda a enxerga estava coberta destes panos, com fundo branco, ricos em cores dinâmicas, verde e azul, sob a forma de corações de vários tamanhos e sobrepostos. Uma cama lúdica e excêntrica, como a sua proprietária.
A donzela entreabriu a janela, permitindo a entrada da brisa matinal, impregnada de odores campestres. Abriu os postigos e o sol penetrou no interior, ainda tímido e sereno.

O cortinado de seda âmbar, com flores-de-lis lavradas, agitou-se tremulamente à passagem do vento brando, desprendendo silhuetas floridas, à sorte, pelas paredes brancas, no soalho de madeira, pelo escasso mobiliário e nos panos do leito. As flores-de-lis e os corações sobrepostos rivalizavam na beleza.
 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXV

Já não tinha memória das minhas exigências. Aquilo prometia muito mais.
Juliana ergueu a mão em concha, para me contemplar melhor. Passou um dedo sobre cada um dos lados da minha marrafa central. Depois riu.
Inicialmente, pensei que ria de alegria por me ter reencontrado e quase me contagiou. Depois descobri que se ria de mim.
Cabra! Pensei, mas contive-me.

Fiquei com vontade de vomitar, só de pensar no pequeno-almoço que tinha pensado devorar. Mas não dei parte de fraco. Cerrei violentamente os maxilares, semicerrei os olhos e deixei-me ficar tenso, na mão dela, para ver o que aquilo ia dar.
Marina de Cascais

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXIV

Contive-me, não queria pôr o carro à frente dos bois. Deixaria esse assunto para mais tarde. Em primeiro lugar, teria que me fazer ofendido por ter sido abandonado na noite anterior. Em segundo lugar, pediria explicações acerca do seu misterioso desaparecimento. Em terceiro lugar, perguntaria por que razão o meu jantar tinha sido negligenciado.
Meio adormecida e a bocejar ruidosamente, Juliana arregalava os olhos, pestanejava e erguia as sobrancelhas em excesso (ficava um pouco esquisita). Quando conseguiu fixar um ponto, descobriu-me no chão. Abaixou-se para me pegar e eu fiquei aninhado na sua cálida mão, com perfume de cama.

O meu calor e o calor dela, tanto calor junto estava em vias de liquefazer tudo o que fosse de pvc, num raio de alguns metros.

Baía de Cascais

sábado, 10 de maio de 2014

LÁ NO JARDIM DE INFÂNCIA

Maio é o mês do coração.
Nós iremos, no Dia da Família, a 15, fazer uma caminhada para incentivar à prática do exercício físico em família.
Estamos a fazer umas t´shirts muito giras.


 E nos intervalos fazemos muitas coisas, por exemplo: regar a horta.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXIII

A Vénus de Milo saiu do seu expositor, no Louvre, e fez a sua aparição à porta da casa do Monte Roseiral, completa, completíssima, e eu esvaí-me em tonturas. O cabelo, cor de seara madura revolta pelo vento, aguçou-me o apetite. A boca inchada pelo sono, uma gigantesca cereja vermelha, daquelas que eu nunca tinha visto, convidou-me a debicá-la. Que pequeno-almoço! Cereais e fruta. Só faltava o leite para satisfazer, com primor, a minha primeira refeição do dia.

 Juliana vestia uma camisa de dormir alva, com morangos silvestres, muito decotada e de alças finíssimas. Apeteceu-me, naquele mesmo momento, pegar nas alças. Primeiro numa, depois na outra e deixá-las escorregar, lentamente, pelos braços abaixo. E assim, satisfazer, com primor, a minha primeira refeição do dia.

Portinho da Arrábida

terça-feira, 6 de maio de 2014

COISAS BOAS

Pizza caseira

Pão com chocolate

Pão de alho com salsa

Morangos e amoras

Horta no jardim de infância

Horta em festa

Os meus iates

domingo, 4 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXII


Reparei que a aldraba da porta, de ferro preto, estava decorada com a cabeça de um leão. Seria por homenagem a algum clube de futebol, interroguei-me. Não me demorei na reflexão. Nem tampouco me importei com a resposta, fosse ela afirmativa ou negativa. Nem aprecio o futebol, até me chateia que uma coisa disforme e sem asas voe tanto ou mais depressa do que eu. Inspirei fundo e ergui o queixo. Segurei na cabeça do leão, deixei-me invadir pela garra e bati com vigor.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O VOO DO PARDAL XXXI

Determinado, levantei-me e alisei criteriosamente as penas, deixando apenas a marrafa central da cabeça, à semelhança dos bonitões do princípio do século passado. Passei com a ponta das penas húmidas nos cantos dos olhos e removi as ramelas.
Olhei-me na vidraça e gostei do que vi. Senti-me um garanhão, ninguém poderia deter-me nos meus propósitos. Iria debater-me pela minha dama, até à exaustão. 
Rodeei a casa à procura da porta de entrada. Estava farto de entrar pela janela, como um indivíduo de segunda categoria. 
Daquela vez entraria pelo pórtico, triunfalmente. É claro que não seria necessário abrir alas ou entoar o toque polifónico, adequado a estas circunstâncias. Eu gostava da discrição.

Galápos