sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL LIV

 Parti em voo de reconhecimento sozinho.
Mais vale só do que mal acompanhado, reflecti, embora haja quem prefira mal acompanhado do que só. Tu e eu não somos desses, por isso te escolhi como confidente.
Voei ao sabor do vento que não soprava, refresquei as minhas penas ao sol que queimava. O calor fazia-me transpirar, ensopando-me os órgãos cutâneos até ao tutano. Toda a minha superfície estava fresca. Tão fresca que não quis estar noutro sítio senão naquele.
Eu cortava, sem dó, o ar a fio de navalha. Se tivesse tomado um pouco mais de atenção, teria reparado no fiozinho de sangue a escorrer do ar que rasgava, como o galo, num momento de posterior intimidade, me confidenciou.

Voei de todas as formas que me apeteceu e desafiei todas as leis da aerodinâmica. Não havia ninguém nas redondezas que me controlasse, proibisse ou que escarnecesse do meu voo. Era de novo livre para obedecer aos meus princípios ímpios.

Odeceixe


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

MOMENTOS


Esta é a imagem que eu quero que me acompanhe durante todo o ano. Ela reúne o que mais aprecio...

 ...ao pôr do sol na Praia da Rocha.

Assim como os pés embrulhados em areia, à hora de ir embora, em Lagos. 

Perco-me em divagações ao imaginar a rotina que aconteceu em volta deste poço no Forte da Praia da Rocha.

 Impressionou-me este pássaro que não consegui identificar, junto de tantas gaivotas.
Tinha um aspeto doente e piava de forma angustiada.

 Gostei do aspeto árabe desta paisagem. Pertence a um hotel na Praia da Rocha.

Este canhão no Forte da Praia da Rocha matou-me de riso...

... porque o monograma tem as minhas iniciais!
Este canhão é meu!!!
Cedi-o temporariarmente à Câmara Municipal de Portimão...

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL LIII

Para matar o ócio, convidei o meu companheiro a dar uma volta pelas redondezas. Como resposta, obtive apenas um rolar esgazeado da íris pela órbita do olho.
 O sacana era teso, exercia a sua função com extremo zelo e não passava chapa a ninguém. De qualquer forma, um galo nunca poderia ir muito longe. Quis um conjunto de factores, sem causa aparente, que aquele fosse um animal doméstico. Um animal sem vontade própria, destinado unicamente a servir a espécie humana, sem outras aspirações que não fossem a de anunciar a madrugada, de galar as galinhas, de servir de conduto para o pão e ser guardião do cata-vento. Que porte majestoso, para uma existência tão nula!
Ainda bem que tu e eu não somos galos.

De contrário, seríamos inúteis.
Alte

Alte



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

FUGA

Estávamos fartos de trabalho, abandonámos tudo, deixámos a horta e o pomar entregues aos bichos e partimos em busca de novas paragens.
Rumámos para sul e fomos até ao Algarve.
A nossa primeira paragem foi em Alte, no concelho de Loulé. É uma aldeia simpática ainda com muitos traços caraterísticos da região.




domingo, 17 de agosto de 2014

CONSERVA DE MALAGUETA

 Os primeiros frascos levaram as malaguetas cortadas aos pedacinhos porque os encarregados da tarefa (os filhos) baralharam-se e não perceberam que elas deveriam ficar inteiras. À conta deste trabalho ficaram os dois com derrames nos olhos.


Para a conserva, usámos azeite, whisky, sal, 1 dente de alho esmagado, 1 folha de louro e sementes de coentros.


Foi um desperdício de azeite. Nunca experimentei fazer isto. Só espero que não desenvolva bolor.


Esgotámos o stock de azeite. Este último frasco fica a aguardar a renovação do stock.


Fica o desabafo, que ninguém nos ouve: às vezes fico farta destas tonteiras todas...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL LII

Juliana partiu com a garrafa meio vazia. A outra metade tinha sido despejada num cesto roto. Desejei que ela não se demorasse.
Voei até à parte mais alta da casa, para ficar a vê-la afastar-se.
Elegi a cabeça do guardião do cata-vento como posto de vigia. Ficámos os dois a ver a nuvem de pó que se estendia com timidez, por entre o arvoredo próximo à casa. A nuvem crescia, com exuberância, em altitude e em linha recta, pelo meio do trigal, à medida que a velocidade do carro aumentava. 
Naquele exacto momento, tinha acabado de perceber o porquê da indefinição da cor do carro de Juliana. A seu tempo, providenciaria o alcatroamento do caminho. 


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A NOSSA PISCINA

A nossa piscina foi montada há muito tempo.





Mas só hoje é que a usámos. Este verão anda pouco apetecível.

domingo, 10 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL LI

Eu estava a tornar-me no seu braço direito e ela sabia disso.
Voltou para o carro, já livre dos terríveis sintomas da alergia. Abriu o capot, destapou o reservatório de água e atestou-o.

Aquele radiador e respectivos tubos tinham de ser substituídos. Estavam podres e aniquilados, com pouca ou nenhuma capacidade para reter o precioso líquido.
Milho para pipocas


sábado, 9 de agosto de 2014

O POMAR DA BARBIE E DO KEN

Este abrunheiro tem os frutos completamente cheios de lagartas. É tão frustrante abrirmos um abrunho e não o conseguirmos comer...



 Esta é uma macieira Starking. É uma árvore jovem mas já nos honrou com uns belos exemplares. Espero que a mosca não a ataque. 


Esta é uma macieira de variedade desconhecida. Nos primeiros anos produziu maças Royal Gala. Desde que fiz polinização artificial com a variedade Golden começou a produzir estes frutos estranhos.
Já descobrimos uma destas maças com a marca da mosca, que é um pequeno furo a deitar um liquido viscoso e castanho. Apanhámo-las imediatamente e agora esperamos que amadureçam.


Esta é uma variedade de ameixas imune à mosca. Já apanhámos os frutos quase todos. Fizemos doce e muito sumo.



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL L

Guarda o que não presta, que mais tarde servirá, repetia de si para si, enquanto abanava a cabeça da esquerda para a direita ciclicamente.
Cansada, sentou-se num calhau rolado, dando palmadas distraídas nas calças molhadas e fixando o vazio.
Aproximei-me, tímido, da poça de água formada no chão castanho e beberiquei umas gotas frescas. O calor intenso, àquela hora do dia, secava-me a goela. Olhei-a de soslaio. Pareceu reparar em mim. A minha presença arrancou-a ao estado latente e deixou de agredir as calças molhadas. Endireitou as costas, respirou fundo e voltou a pegar na garrafa, que tinha sido arremessada para longe, com a fúria.
Desta vez e com cautela, aproximou a garrafa por baixo da torneira. Abriu-a lentamente até obter o fluxo adequado ao diâmetro do gargalo, de forma a permitir a saída do ar em simultâneo.

Missão cumprida. Juliana conseguiu encher a garrafa, sem perder uma gota. Olhou em redor, em busca da tampa azul. Eu tinha-a no bico.
 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

ERA UMA VEZ UM DAMASQUEIRO

Em maio, o nosso damasqueiro ficou carregado de fruta. Tão carregado que partiu vários troncos.




Agora levou um corte enorme. Isto significa que no próximo ano há uma alta probabilidade de não termos damascos. 



terça-feira, 5 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL XLIX

 Juliana pronunciou uma palavra obscena, com todas as letras, pouco própria na boca duma menina da sua estirpe. Por pudor, recuso-me a trasladá-la.
Carrancuda, e já sem pressa, levou a garrafa até ao fontanário existente na esquina da casa e começou a enchê-la. Encostou a boca da garrafa à saída da torneira. De tal forma a encostou que impediu que o ar engarrafado saísse. O líquido incolor e transparente derramou-se por todo o lado. Pingas de água borrifaram a parede branca e azul e o chão castanho. As mãos encrespadas, os braços nus, a camisola turquesa, as calças, sapatilhas e o exterior da garrafa ficaram a escorrer, enquanto os cabelos despenteados e o rosto, que ainda não tinham visto gota nesse dia, refrescaram com uns furtivos esguichos. Nem uma gota entrou, saíram todas.

Pobre Juliana. Como se lamentou de ter vendido, ao homem do ferro-velho, o funil enferrujado que, durante décadas, ficara dependurado no prego sobranceiro à torneira do fontanário.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL

Cá em casa, quase todos os dias, fazemos a dieta mediterrânica (aspiramos à imortalidade!). Esta dieta foi considerada pela UNESCO como património mundial e imaterial da humanidade.
Baseia-se  no consumo de peixe, legumes e hidratos de carbono cozinhados num processo de transformação simples. O azeite, o pão, a fruta e a água são também essenciais.


Todos os alimentos presentes neste prato são de produção caseira, com exceção do peixe. Ainda assim estamos a ponderar construir uma barragem para a cultura de peixe ;).



Esta é a nossa horta no seu apogeu. 
A horta que me escraviza... (este dava um bom título para um romance).

domingo, 3 de agosto de 2014

O VOO DO PARDAL XLVIII

Sob um secular pinheiro manso, cujas agulhas verdes perfuravam e perfumavam a atmosfera com uma estranha convicção, descortinei um veículo automóvel. Era para lá que ela se dirigia.
Era um velho Peugeot de cor indefinida, um tom talvez entre o cinzento, o azul ou o preto, tal era a camada de pó que o cobria. Riscada no vidro traseiro lia-se a mensagem, EU POUPO ÁGUA.
Juliana sentou-se ao volante e ligou a chave para aquecer a resistência. Enquanto esperava, apertou o cinto de segurança para dar cumprimento à imposição do código de estrada. Ligou a ignição e fixou a atenção, com o semblante carregado, no ícone que representava a falta de água no radiador. Sibilou algo que se assemelhava a um palavrão.

Desligou a chave do carro, puxou o manípulo, situado à esquerda do volante, um pouco abaixo, e destrancou o capot. Saiu do carro e tirou de trás do banco uma garrafa de água de 1,5L vazia.


sábado, 2 de agosto de 2014

CUIDAR DA FLORESTA E AFINS

Hoje, de manhãzinha, fomos limpar a nossa floresta.
Não é uma tarefa fácil porque há muito mato, muitas silvas e muitos pinheiros jovens.



Fomos visitar a avó e não resisti a fotografar o Sabá.



Um primo nosso foi à pesca, aqui numa barragem perto, e ofereceu-nos estes 4 achigãs.